rudd16_Paula BronsteinGetty Images_covidvaccines Paula Bronstein/Getty Images

O vírus, na próxima vez

BRISBANE – À medida que os países mais desenvolvidos começam a sentir que chegaram ao outro lado da crise da COVID-19, duas realidades marcantes vão surgindo. Em primeiro lugar, pode-se ver claramente o quão vulneráveis muitos países em desenvolvimento ainda são ​​à rápida escalada de surtos do tipo que estamos a testemunhar na Índia. Os resultados do fracasso na distribuição das vacinas mais eficazes de forma equitativa e estratégica estão a ser revelados.

Em segundo lugar, com o surgimento contínuo de variantes mais perigosas e contagiosas, não nos podemos dar ao luxo de atrasar o trabalho em direção a um novo sistema internacional de preparação e resposta a uma pandemia. Temos de começar esse projeto imediatamente. E, felizmente, o Painel Independente para Preparação e Resposta à Pandemia (IPPR), presidido pela ex-primeira-ministra da Nova Zelândia, Helen Clark, e pela ex-presidente liberiana, Ellen Johnson Sirleaf, acaba de publicar um plano de como fazê-lo.

A questão agora é se os governos estão preparados não apenas para ouvir, mas também para agir. A resposta determinará se podemos evitar que futuras epidemias se tornem catástrofes mundiais. Sei pela experiência do meu próprio governo durante a pandemia de gripe suína (H1N1) de 2009 que é crucial enfrentar estas crises com uma ação imediata, de longo alcance e coordenada. Graças a oito meses de trabalho do IPPR, os governantes agora têm um conjunto abrangente de recomendações para transformar a forma como gerimos os riscos de uma pandemia.

A principal proposta do painel é um apelo para que a preparação e a resposta à pandemia sejam elevadas ao mais alto nível de liderança política através de um novo Conselho Global de Ameaças à Saúde, que deveria funcionar na sede das Nações Unidas em Nova Iorque. O painel também propôs um Mecanismo de Financiamento Internacional para Preparação e Resposta à Pandemia, para ajudar a dividir o fardo em futuras crises mundiais de saúde. Seja através de contribuições diretas ou de uma espécie de contribuição avaliada, este mecanismo financiaria tanto as medidas em curso para a preparação como as de resposta rápida em países de baixo e médio rendimento.

O IPPR ofereceu o tipo de orientação enfática, imparcial e acionável de que os governos precisam e que – neste caso – exigiram através da Organização Mundial da Saúde (OMS). Há quatro anos, a Comissão Independente de Multilateralismo (ICM, que presidi) tentou alertar sobre a crescente ameaça de pandemias no seu relatório Global Pandemics and Global Public Health. Ficámos chocados com o mau estado da arquitetura mundial de saúde num momento em que as crises de saúde transfronteiriças estavam a tornar-se mais frequentes e a apresentar riscos sem precedentes. Desde então, esses riscos materializaram-se na forma da pandemia de COVID-19.

Além de emitir um alerta claro, o relatório da comissão fez uma série de recomendações ousadas para fortalecer o sistema multilateral perante potenciais crises mundiais de saúde. As suas propostas de regras mais claras para os mecanismos de verificação e alerta precoce têm agora eco nas recomendações do IPPR, assim como o seu apelo a um secretariado independente da OMS com mais poderes. Ainda estamos a aguardar avanços em todas estas frentes.

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Não podemos permitir que o relatório do IPPR faça os mesmos ouvidos de mercador. E, no entanto, é exatamente isso o que parece estar a acontecer. A 74.ª Assembleia Mundial da Saúde acaba de votar a favor de passar seis meses a estudar o relatório do painel antes mesmo de considerar qualquer ação. Esses atrasos são simplesmente inaceitáveis.

A crise da COVID-19 confirmou uma verdade incómoda que é enfatizada no relatório do IPPR: nomeadamente, o facto de que muitas das instituições nacionais e internacionais estabelecidas para lidar com pandemias mundiais não são adequadas para o propósito ou não foram ativadas corretamente. A partir do final de 2019 e início de 2020, quando o Regulamento Sanitário Internacional existente falhou, o surto de COVID-19 tornou-se uma catástrofe mundial. E, desde então, as nossas respostas económicas nacionais e internacionais têm sido muito lentas, pouco convictas e descoordenadas – uma falha que a arquitetura do G20 pós-2008 deveria, supostamente, ter prevenido.

A crise atual ainda pode piorar muito antes de melhorar. Já estamos a testemunhar um colapso das cadeias de abastecimento globais, o que levará a terríveis consequências económicas, políticas e de saúde pública. Agora, precisamos de voltar ao caminho certo para que possamos lutar não apenas contra futuras pandemias, mas também contra esta.

O relatório do IPPR não poderia ser mais oportuno. A cimeira do G7 na Cornualha, de 11 a 13 de junho, é uma oportunidade para concentrarmos os nossos esforços com o apoio dos mais altos níveis políticos. A COVID-19 tem saído cara a todos nós. O relatório do ICM de 2017 antecipou que um dia estaríamos nesta situação e identificou as soluções que precisaríamos de implementar. Vamos usar as conclusões do IPPR para promulgar reformas significativas e mostrar uma verdadeira liderança, de modo a que esta pandemia seja a última a apanhar-nos desprevenidos.

https://prosyn.org/BivEqZFpt