manzi1_LUIS TATOAFP via Getty Images_covid testing kenya Luis Tato/AFP via Getty Images

Superando as interferências da covid-19 nos serviços de saúde essenciais

KIGALI – Serviços de saúde de praticamente todos os países tiveram problemas por causa das suposições inicialmente erradas dos legisladores, de que os sistemas de saúde iriam rapidamente vencer a batalha contra a covid-19. À medida que o número de casos e mortes da pandemia aumenta diariamente, isso tem barrado ou revertido avanços duramente conquistados na redução do impacto de outras doenças, da diabetes à malária.

No início da pandemia, muitos legisladores e líderes da área da saúde consideravam aceitável uma interrupção relativamente curta dos serviços essenciais de saúde, mas agora está claro que a covid-19 irá durar muito além do que se imaginou. Os países não podem mais adiar a prestação de serviços cruciais de saúde. Sem uma ação imediata para garantir sua continuidade, o número de mortes futuras decorrentes de doenças transmissíveis e não-transmissíveis será inaceitavelmente alto.

Em uma fúnebre avaliação recente dos custos mundiais da crise da covid-19, a Bill & Melinda Gates Foundation relatou que, em 25 semanas, a pandemia havia feito o mundo recuar 25 anos em termos de cobertura de vacinação – uma boa ideia de como os sistemas de saúde têm funcionado de modo geral. Claramente é hora de garantir que os serviços essenciais de saúde não fiquem para trás.

Isto exigirá financiamento dedicado, abordagens inovadoras e serviços descentralizados para chegar às comunidades mais doentes e mais pobres do mundo. Legisladores devem realocar verbas dos orçamentos de seus países e formar parcerias com investidores privados para reunir os recursos necessários. Também é fundamental definir fundos domésticos e globais de solidariedade, semelhantes ao Fundo Global de Combate à Aids, Tuberculose e Malária. Criar tais fundos dedicados poderia ajudar países e instituições multilaterais a manter a continuidade dos serviços de saúde essenciais, fortalecendo assim sistemas de saúde e  economias nacionais no longo prazo.

Antes mesmo da pandemia, estimava-se que ao menos metade das 7,8 bilhões de pessoas do mundo não tinha acesso a serviços essenciais de saúde. No mundo, seis milhões de crianças e adolescentes e 2,8 milhões de mulheres grávidas e recém-nascidos morrem de doenças evitáveis ou tratáveis todo ano. A covid-19 tem aumentado estes números e implodido o acesso aos serviços de saúde.

Especialistas em saúde mundial há tempos estão cientes dos entraves que uma emergência prolongada pode causar aos serviços de saúde. Em 2018, a Organização Mundial de Saúde estabeleceu um pacote essencial de serviços que deveria estar disponível de graça aos usuários durante uma crise estendida. Os itens incluíam cuidados maternos e neonatais, além de tratamento para doenças transmissíveis e não-transmissíveis, saúde mental e doenças tropicais negligenciadas.

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Há vários desafios para o oferecimento deste pacote. Primeiro, os atendimentos para doenças não-transmissíveis vêm caindo de modo significativo. Dos 155 países estudados pela OMS, 53% relataram interrupção parcial ou total dos serviços de tratamento de hipertensão, 49% de diabtes, 42% de câncer e 31% de emergências cardiovasculares.

Testes e tratamentos de HIV e tuberculose também foram afetados. A África do Sul está entre os países mais atingidos por estas doenças. Durante o lockdown do país, a queda nos testes de tuberculose levou a uma redução de 33% nos diagnósticos. O número de pacientes com tuberculose e HIV que buscava remédios com data marcada também vem caindo. Uma adesão menor em breve levará a uma resistência maior a medicamentos, falência terapêutica e mais custos de tratamento.

No entanto, outros países, entre eles Ruanda, Nova Zelândia e Taiwan, têm demonstrado notável sucesso em assegurar a continuidade dos serviços de saúde essenciais. Em Taiwan, por exemplo, a cobertura universal de saúde de baixo custo não foi interrompida durante a pandemia, e Ruanda manteve a operação de um novo centro de radioterapia para tratamento do câncer.

Em Serra Leoa, onde uma em cada 17 mães tem risco permanente de morte associada ao parto, o hospital público de Koidu, no distrito de Kono, está trabalhando com a Partners In Health, organização global sem fins lucrativos, em uma campanha de comunicação em massa que lembra às grávidas de usar os serviços de cuidados maternos. Após uma queda acentuada no número de visitas pré-natal, as mulheres voltaram a procurar esses serviços.

Clínicas na África Subsaariana também têm inovado na continuidade do monitoramento e tratamento dos 19 milhões de pacientes com diabetes do país durante a pandemia. A Sociedade de Endocrinologia e Metabolismo do Camarões, por exemplo, elaborou dez “regras de ouro” para tratamentos de covid-19 e diabetes, que incluem instruções sobre exercícios durante o confinamento. As clínicas de diabetes também estão introduzindo teleconsultas para diminuir a necessidade de visitas presenciais aos consultórios.

Além disso, alguns países vêm buscando soluções inovadoras para assegurar a prestação dos serviços de saúde. Ruanda, por exemplo, tem usado drones para levar remédios para pacientes com câncer e robôs para monitorar sinais vitais de pacientes com covid-19 e prevenir que contraiam infecções nos hospitais. Soluções tecnológicas podem nem sempre ser baratas, mas os ganhos talvez compensem o gasto financeiro.

Para obter resultados semelhantes, muitos países precisam mudar urgentemente seus sistemas de destinação de verba e prestação de serviços de saúde. Onde for possível, centros de testagem e tratamento de covid-19 deveriam fazer parte dos serviços essenciais de saúde, inclusive exames para identificação de problemas como casos de gravidez de alto risco e doenças crônicas.

Não só isso, descentralizar os serviços de saúde poderia fortalecer o preparo sistêmico e limitar interrupções. Isso exigirá treinamento e um exército ampliado de trabalhadores de saúde comunitária, que inclui chefes de famílias, professores, líderes espirituais e curandeiros. Na Libéria, por exemplo, assistentes comunitários de saúde treinados têm papel central na resposta à covid-19, e ao mesmo tempo continuam a prestar serviços essenciais.

Claramente, as interferências nos sistemas de saúde causadas pela covid-19 são superáveis. De modo crucial, os países precisam reavaliar suas estratégias de prestação de serviços e direcionar investimentos aos serviços de saúde essenciais. Assim, fortalecerão sua resiliência a crises de saúde semelhantes no futuro.

Tradução de Fabrício Calado Moreira

https://prosyn.org/G04A8N6pt